
No original "The ocean at the end of the lane", escrito pelo britânico Neil Gaiman,
com 208 páginas e publicado no Brasil pela Intrínseca
"Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava
prazer em coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam."
É possível um oceano ser tão pequeno quanto um lago? O pai do narrador de O Oceano no Fim do Caminho acha que não. O narrador acha que sim. E todo mundo que leu essa história deve concordar que sim, a resposta é sim. Na verdade, um oceano pode ser tão pequeno quanto um livro azul de 208 páginas, e mesmo assim ser tão grande quanto o próprio universo e todos os seus mistérios. O Oceano no Fim do Caminho é assim, pequeno e grande, meigo e assustador. Uma história que encanta, assombra e emociona principalmente aqueles que já deixaram as aventuras da infância para trás, mas que delas não plenamente se despediram.
O livro tem um herói que poderia ser qualquer um. Ele não diz o seu nome, está voltando de um funeral na região onde passou a infância e resolve visitar a fazenda no final da estrada onde morava a família de sua antiga amiga Lettie Hempstock. Enquanto o herói podia ser qualquer um, as Hempstock são únicas em todos os sentidos. Ele as conheceu quando tinha sete anos, e as suas memórias daquela época estão enevoadas, esquecidas. Mas, ao sentar-se de frente para o lago nos fundos da fazenda, ele subitamente se lembra do que realmente aconteceu naquela estrada e nos seus arredores tantos anos atrás.
“Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos em seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas.” [pág. 70]
O Oceano no Fim do Caminho é um livro marcante, daqueles que não precisam de muito para passar uma bela mensagem. A narrativa é simples, afinal, trata-se do ponto de vista de um menino de sete anos. Ainda assim, é uma narrativa carregada de figuras simbólicas, frases de efeito e referências que demonstram a sabedoria do autor dentro da inocência do protagonista.
O desfecho é mágico, tocante. É um final como deveria ser em todas as histórias, ou seja, a melhor parte. No fim das contas, Neil Gaiman escreveu um mito, pois, como o próprio autor diz no livro, mitos "... não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores do que isso. Simplesmente eram." [pág. 66] E O Oceano no Fim do Caminho deixa essa mesma sensação.



