Pequenos Deuses - Terry Pratchett
Small Gods | Bertrand Brasil, 2015 | 308 páginas
Religião é um assunto controverso em Discworld. Todo mundo tem sua própria opinião e até seus próprios deuses, que podem ser de todas as formas e tamanhos. Nesse ambiente tão competitivo, as divindades precisam marcar presença. E a melhor maneira de fazer isso certamente não é assumindo a forma de uma tartaruga. Nessas situações, você precisa, e rápido, de um assistente. De preferência alguém que não faça muitas perguntas...
Sir Terrence David J. Pratchett - ou simplesmente Terry Pratchett - foi um escritor inglês mundialmente reconhecido por sua série de (pasmem) 39 livros que se passam em um mundo fictício e fantástico chamado Discworld. O Terry infelizmente faleceu esse ano, em março, e com isso, as traduções brasileiras dos livros dele, que estavam paradas desde Os Pequenos Homens Livres (Conrad, 2010, Discworld #30), foram retomadas, mas agora pelas mãos da Bertrand Brasil, com Pequenos Deuses.
O livro é, originalmente, o décimo terceiro volume da série, mas não guarda aquela forte relação de dependência com os volumes anteriores. Dá para ler sem ter lido nada do Pratchett antes, e esse foi justamente o meu caso. Peguei para ler porque a história é uma sátira (mas não dessas toscas que existem apenas pelo simples prazer de desmerecer uma obra) e usa a ficção fantástica para criticar comportamentos reais, algo bem parecido com o que o Douglas Adams fez com a ficção científica na sua série O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Só que em Pequenos Deuses a crítica não é ampla em relação a todas as incongruências que existem no mundo, mas sim especificamente dirigida à religião e à filosofia. A história segue os passos do grande e onipotente deus Om, que, no começo do que pode vir a se tornar uma sangrenta guerra santa nos moldes do Cristianismo Medieval, se vê materializado no corpo de uma frágil tartaruga caolha e descobre que só possui realmente um único e verdadeiro crente que consegue ouvi-lo: o noviço e nada importante Brutha.
Juntos, Brutha e Om seguem em uma perigosa jornada para restaurar a crença omniana, e é durante essa jornada que o Terry Pratchett vai inserir muito bem os seus pontos de reflexão, seja com humor ou com questões éticas e morais. Mas o que se deve ressaltar logo para evitar pré-julgamentos é que esse livro de forma alguma desmerece a fé, seja ela qual for. Brutha é um crente, o último, e com toda a sua humildade e ingenuidade, se torna o personagem mais bonito da história.
Na verdade, a crítica de Pequenos Deuses é construída em cima da religião como instituição autoritária, quando ela se torna tão poderosa que passa a servir mais aos interesses dos homens que a regem do que aos princípios da deidade na qual ela se ergue, e nem os próprios fiéis percebem que já se afastaram bastante do que a religião inicialmente se propunha. O livro trava uma luta contra a fé cega, o fanatismo religioso e as guerras santas, e é só olhar ao redor para ver que o debate ainda é ex-tre-ma-men-te atual.
Toda essa ficção metafórica e mensagens sutilmente escondidas me fizeram gostar bastante do livro, mesmo que no começo, sem ter nenhum contato anterior com a Discworld, eu tenha estranhado todo esse novo mundo e seus nomes esquisitos. Mas a narrativa vai evoluindo e é bem nerd. A propósito, a saga inteira do Terry é considerada nerd, só que, pelo menos nesse volume, é bom expandir o termo para além da cultura pop nerd gamelike. Se, por exemplo, você nunca teve um contato com filosofia, o humor que o autor extrai de algumas verdades filosóficas não vai soar 100% engraçado. Ainda será engraçado, porque você vai rir da forma como a piada foi contada, mas sem compreendê-la realmente.
Enfim, achei Pequenos Deuses um livro bastante inteligente e alternativo, que já me deixou curiosa para conhecer os outros volumes da Discworld. Gostaria de dizer que recomendo para todo mundo, mas como se trata de religião, sempre tem que ter aquela cautela. Então vou deixar simplesmente assim: recomendo para todos que gostam de uma narrativa crítica, divertida e dinâmica, com personagens cativantes e sutil na sua mensagem :)
O livro é, originalmente, o décimo terceiro volume da série, mas não guarda aquela forte relação de dependência com os volumes anteriores. Dá para ler sem ter lido nada do Pratchett antes, e esse foi justamente o meu caso. Peguei para ler porque a história é uma sátira (mas não dessas toscas que existem apenas pelo simples prazer de desmerecer uma obra) e usa a ficção fantástica para criticar comportamentos reais, algo bem parecido com o que o Douglas Adams fez com a ficção científica na sua série O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Só que em Pequenos Deuses a crítica não é ampla em relação a todas as incongruências que existem no mundo, mas sim especificamente dirigida à religião e à filosofia. A história segue os passos do grande e onipotente deus Om, que, no começo do que pode vir a se tornar uma sangrenta guerra santa nos moldes do Cristianismo Medieval, se vê materializado no corpo de uma frágil tartaruga caolha e descobre que só possui realmente um único e verdadeiro crente que consegue ouvi-lo: o noviço e nada importante Brutha.
Juntos, Brutha e Om seguem em uma perigosa jornada para restaurar a crença omniana, e é durante essa jornada que o Terry Pratchett vai inserir muito bem os seus pontos de reflexão, seja com humor ou com questões éticas e morais. Mas o que se deve ressaltar logo para evitar pré-julgamentos é que esse livro de forma alguma desmerece a fé, seja ela qual for. Brutha é um crente, o último, e com toda a sua humildade e ingenuidade, se torna o personagem mais bonito da história.
Na verdade, a crítica de Pequenos Deuses é construída em cima da religião como instituição autoritária, quando ela se torna tão poderosa que passa a servir mais aos interesses dos homens que a regem do que aos princípios da deidade na qual ela se ergue, e nem os próprios fiéis percebem que já se afastaram bastante do que a religião inicialmente se propunha. O livro trava uma luta contra a fé cega, o fanatismo religioso e as guerras santas, e é só olhar ao redor para ver que o debate ainda é ex-tre-ma-men-te atual.
Toda essa ficção metafórica e mensagens sutilmente escondidas me fizeram gostar bastante do livro, mesmo que no começo, sem ter nenhum contato anterior com a Discworld, eu tenha estranhado todo esse novo mundo e seus nomes esquisitos. Mas a narrativa vai evoluindo e é bem nerd. A propósito, a saga inteira do Terry é considerada nerd, só que, pelo menos nesse volume, é bom expandir o termo para além da cultura pop nerd gamelike. Se, por exemplo, você nunca teve um contato com filosofia, o humor que o autor extrai de algumas verdades filosóficas não vai soar 100% engraçado. Ainda será engraçado, porque você vai rir da forma como a piada foi contada, mas sem compreendê-la realmente.
Enfim, achei Pequenos Deuses um livro bastante inteligente e alternativo, que já me deixou curiosa para conhecer os outros volumes da Discworld. Gostaria de dizer que recomendo para todo mundo, mas como se trata de religião, sempre tem que ter aquela cautela. Então vou deixar simplesmente assim: recomendo para todos que gostam de uma narrativa crítica, divertida e dinâmica, com personagens cativantes e sutil na sua mensagem :)
"Só porque você consegue explicar não significa que não seja um milagre."

